Estante do Dollars - Rosa de Versalhes #1 & #2

Obra máxima de Riyoko Ikeda, finalmente, aporta em solo brasileiro e nos mostra um diálogo afiado e bem a frente de seu tempo

Quero começar este “Estante do Dollars” com o meu mais profundo agradecimento à Editora JBC por ter publicado esta obra no Brasil, pois, honestamente, ela é extremamente válida no dado momento que temos no país - em especial com relação a questão de gênero e sexualidade. 
Sei que é um assunto complicado e muitas pessoas ainda possuem o pensamento atrasado quanto o assunto é gênero, em parte por criação ou, até mesmo, por ignorância mesmo; mas ele precisa vir a tona e temos em mãos um mangá que trata disso com viés histórico, inclusive. 
Dito isso, só posso dizer que o mangá que entra na estante hoje é Rosa de Versalhes, da autoria de Riyoko Ikeda. Então se acomodem e venham ler minhas opiniões sobre a obra.

Sinopse oficial (via site da editora):

Primavera de 1770.
Maria Antonieta, da Família Habsburgo da Áustria tornou-se a delfina da França com apenas 14 anos ao entrar para a Família Bourbon.
Oscar François de Jarjayes, capitã da Guarda Real, foi escolhida para realizar a escolta da jovem delfina. Apesar de ser a filha caçula de uma casa de generais e dona de uma beleza exuberante, foi criada como um homem para ser a sucessora da Família Jarjayes, recebendo educação militar desde cedo.
Apesar de viver na corte, Maria Antonieta sentia uma grande solidão por estar em um país estrangeiro. Desejando esquecer esse sentimento, a delfina participa de um baile de máscaras realizado na casa de ópera. E nesse dia, ela conhece o jovem nobre sueco Hans Fersen e se apaixona perdidamente por ele.
Esta é a noite que uniu o destino destes três jovens de 18 anos.


Considerações Gerais:

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Escrito e ilustrado por Riyoko Ikeda, Rosa de Versalhes (também conhecido como Lady Oscar) foi publicado pela Margaret, da Shueisha, de 1972 até 1973 rendendo, ao todo, 10 volumes encadernados. Além disso, devido a seu sucesso, a obra ganhou sua adaptação animada no ano de 1979 que contou com 40 episódios ao todo - além de dois especiais de recapitulação (que foram lançados no Brasil, vale mencionar) - e contaram com Shingo Araki como character designer da versão em animê da obra.
Outro ponto que vale mencionar, antes de comentarmos melhor a obra em um todo, é que a série é pioneira em seu gênero a trabalhar questões relacionadas a sexualidade de suas personagens e é extremamente cultuada em sua terra natal, sendo referenciada em outras obras, de uma forma geral. É um clássico que merece tal rótulo.
Mas, vamos ao que interessa, pois vocês estão aqui para entenderem os porquês de eu colocar a obra na estante, então comecemos essa resenha, pois podemos partir do ponto que a autora sabe trabalhar com uma maestria ímpar o tema que resolveu abordar em sua obra.
É notável que houve uma real pesquisa com relação a personalidades reais daquele período, assim como reais referências históricas. Há um real cuidado com a condução da narrativa e, com isso, somos envolvidos naquele cenário e conseguimos nos importar, realmente, com o que ocorre ao longo das páginas do mangá.
Além disso temos personagens que realmente conseguem nos chamar atenção e levantar debates interessantes com relação àquele período e com relação a toda sociedade em si, porque começamos todo nosso enredo com uma protagonista que é mulher, porém foi criada como um homem com a função de servir a realeza da França. 
Dá para dizer que a Oscar serve bem como exemplo no que se refere a questão gênero, pois é uma mulher, que vive como um homem, tem uma postura extremamente masculina arrancando, inclusive, suspiros e amores de muitas mulheres dentro da história. E vale sempre a menção que não é escolha dela seguir por esse caminho que lhe foi conferido, porém assim o faz.
Contudo, as coisas não são um mar de rosas e, há momentos que fica claro que existem aqueles que desdenham dela por ter nascido mulher. E esse desdém fica claro, assim como pessoas que acreditam que ela conseguiu a posição que possui devido a meios escusos e não por mérito próprio (qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência, pois a sociedade é escrota assim desde que a entendemos como sociedade). 
Além dela temos diversos outros personagens que possuem dilemas que nos chamam atenção e temas que, de forma geral, devem ser notadas por seu fundamento dentro da história como, por exemplo, a questão das mulheres serem, em muitos casos, ofertadas como dote de casamento arranjado, para que suas famílias se elevasse socialmente (quem leu a obra sabe bem do que falo).
Claro que além dessas questões o roteiro também é riquíssimo pelo seu ritmo que é bem linear e que consegue nos prender de uma forma que apenas pensamos em virar as páginas em um ritmo frenético e extremamente concentrado.

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Também é preciso comentar que a arte da Riyoko Ikeda é extremamente cativante e cumpre bem seu papel narrativo, nos dando o dinamismo necessário para que a história siga de um jeito que desperte o interesse no leitor.
Vale um destaque especial as feições quando o assunto é fazer graça, pois ela consegue criar algo bem cartunesco nesses momentos e lembra muito o estilo do Tezuka (me julguem, mas lembra demais o estilo do mestre); além disso ela consegue criar personagens que realmente condiz com a beleza que ela descreve na apresentação deles. Isso agrega muito ao resultado final e nos dá uma sensação de trabalho bem feito e com o devido carinho. 
Aqui no Brasil a obra foi lançada em Fevereiro pela Editora JBC que, logo de cara, colocou as duas primeiras edições da série no mercado. Vale mencionar que a edição brasileira segue o padrão big, sendo assim teremos os 10 volumes originais da série saindo daqui como 5 encadernados, com mais páginas. 
A edição possui papel Luxcream, em formato 13,2 cm x 20 cm com 408 páginas em seu primeiro volume. Um detalhe importante de menção é que a obra foi, praticamente, feita do zero; pois não existe versão digital da obra. Logo, todo trabalho feito para produção da obra foi consideravelmente trabalhoso (em especial a capa que muitos, incluindo este que vos escreve, acham feia).

Afinal, porque está na Estante?

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Acredito que posso dizer, sem receio, que esta é uma obra que desde seu anúncio me deixou em um hype imenso e, ao mesmo tempo, despertou minha curiosidade, em especial por conhecer a fama da série e saber que ela é um referencial no quesito shoujo. 
Por esse motivo, ansiei muito para ter esse mangá em mãos e, no momento que comprei os dois volumes iniciais, tive diversos momentos de choque com o material que tinha em mãos, tanto por seu relato histórico quanto pelos temas que a obra se foca abordar ao longo das páginas. Sei que pode parecer panfletagem gratuita, contudo dá para ser claro e dizer que a obra traz temas atemporais e que valoriza bem sua narrativa, de uma forma bem ampla.
Em resumo, é uma obra que merece ser conferida por todos que desejam um bom quadrinho, com temas que estão em evidência até hoje (vale o parênteses que esta é uma obra que não recomendo para galera do “o mundo tá chato hoje em dia”).

Ficha técnica:
capa de Rosa de Versalhes #01Rosa de Versalhes #1 & #2 (Editora JBC)
Autora: Riyoko Ikeda
Formato: 13,2 x 20 cm
Nº de Págs: 408
Preço: R$ 43,90
Onde Comprar: Amazon

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